Sinal

Em 2022–2024, o governo federal brasileiro movimentou R$ 10,35 bilhões em fomento cultural por três programas distintos: Lei Rouanet (Lei 8.313/91), Política Nacional Aldir Blanc (LC 195/2022) e Lei Paulo Gustavo (LC 195/2022). Os três totais são da mesma ordem de grandeza — Rouanet R$ 3,49 bi captados, PNAB R$ 3,00 bi recebidos, LPG R$ 3,86 bi recebidos. Mas a geografia do dinheiro de cada um é uma geografia diferente.

A Rouanet enviou 40,9 % de tudo que captou para uma única UF (São Paulo) e 82,4 % para as cinco maiores. A PNAB e a LPG enviaram, cada uma, 18,9 % para a UF maior receptora e 48 % para as cinco maiores. Ou seja: no mesmo país, no mesmo triênio, dois pipes federais distribuem o dinheiro de forma quase duas vezes menos concentrada que o terceiro. Esse 22-pontos-percentuais de diferença não vem da intenção do programa nem do tema cultural privilegiado — vem da arquitetura de transferência.

A Rouanet opera pela renúncia fiscal: o governo federal abre mão do IR, e o doador privado escolhe qual projeto receberá o dinheiro. Onde estão os grandes departamentos jurídico-tributários das empresas — em SP e RJ. PNAB e LPG operam por transferência direta da União para o ente federado, com fórmula de rateio que considera população e/ou área. Onde está a população brasileira — espalhada por 26 unidades da federação + DF. As duas arquiteturas chegam ao território de jeitos completamente diferentes.


Por que importa

Há um debate de longa data na política cultural brasileira sobre a concentração regional do dinheiro de fomento. Por décadas, a única lente federal em escala foi a Rouanet — e por décadas a crítica foi a mesma: o dinheiro fica em SP e RJ. As LCs 195/2022 (PNAB) e 195/2022 (LPG) trouxeram, pela primeira vez em décadas, uma alternativa estrutural ao desenho indireto. Esta Nota empilha as três contas lado a lado, normaliza por população, e mostra empiricamente que a troca arquitetural funciona como redistribuição — não como retórica, mas como tabela.

A leitura tem três implicações imediatas:

  1. Para o debate público: o dinheiro federal de cultura mudou de geografia em 2022–2024, mas a percepção pública ainda corre na inércia de três décadas de Rouanet. A imagem mental de "o dinheiro fica em SP" descreve corretamente um dos três programas e ignora os outros dois.

  2. Para o ministério: a evidência empírica de que o redesenho funciona dá base para defender a continuidade dos dois programas pós-emergência. A PNAB foi desenhada como política permanente (LC 195/2022 art. 1º); a LPG era emergencial e teve seu prazo prorrogado por lei (Lei 14.628/2023). Há janela política em 2026 para decidir se o desenho permanece.

  3. Para o livro: este é o achado distributivo mais limpo do corpus atana-data até hoje. Pluralismo metodológico aplicado a uma única pergunta de política pública — três fontes administrativas independentes, mesma janela temporal, três respostas que só convergem quando se nomeia a arquitetura.


O que os dados dizem (1) — concentração nacional

Concentração territorial dos três programas, 2022–2024

A Tabela 1 (Figura 1) mostra a fração do total nacional de cada programa que vai para a UF mais receptora, as duas mais receptoras, e as cinco mais receptoras.

Programa Arquitetura Top-1 UF Top-2 UFs Top-5 UFs
Rouanet Indireto via renúncia (1991–) 40,9 % 61,0 % 82,4 %
PNAB Direto a entes, generalista (2022–) 18,9 % 28,7 % 48,4 %
LPG Direto a entes, AV (2022–2024) 18,9 % 28,7 % 48,3 %

Duas observações:


O que os dados dizem (2) — quem recebe quanto por habitante

Per capita por UF, três programas empilhados

A Figura 2 normaliza pela população do Censo IBGE 2022 e mostra o R$ federal de cultura por habitante, somando os três programas. Quatro leituras dela:

A razão R$/hab entre o maior receptor (RJ R$ 73,48) e o menor (MS R$ 35,15) é 2,1×. A mesma razão calculada só sobre a Rouanet pré-2022 (não mostrada) seria de dezenas de vezes. Cf. Figura 3 abaixo.


O que os dados dizem (3) — as UFs trocam de lugar quando o desenho muda

Bump chart: posição de cada UF em cada um dos três programas

A Figura 3 mostra, lado a lado, a posição de cada UF no ranking de R$ per capita em cada um dos três programas. Cada linha é uma UF, ligada três vezes — uma vez por programa. O olho lê o achado sem ler tabela: as linhas vermelhas (top-5 da Rouanet) descem dramaticamente da esquerda para a direita; as linhas azul-marinho (top-5 da PNAB) sobem com a mesma intensidade no sentido oposto. As duas arquiteturas literalmente invertem quem está no topo.

Quatro leituras concretas:

Para reforço quantitativo da troca: a razão R$/hab entre a maior e a menor UF é de 80,8 × se calculada só sobre a Rouanet, 2,4 × sobre a PNAB, 2,5 × sobre a LPG, e 2,1 × sobre a soma dos três programas. A passagem de uma razão de 80× para 2× é a versão quantitativa da mesma troca que a Figura 3 mostra em forma de cruzamento de linhas. Não é hipérbole — é a relação entre dois números reais.

Cross-validação independente. A tabela 3.15 do IBGE SIIC (Gastos tributários federais com Cultura, série Receita Federal do Brasil, 2023) coloca 77,8 % dos gastos tributários no Sudeste — confirmando, por uma fonte administrativa completamente distinta, a concentração que nossa medição via SALIC dá como 61 % em SP+RJ. Duas fontes independentes (microdados SALIC + agregados Receita Federal) descrevem a mesma geografia da renúncia.


Implicações

A nota documenta um achado distributivo limpo. Quatro implicações imediatas:

(i) Para o desenho do orçamento federal de cultura. A escolha entre arquitetura indireta (Rouanet) e direta (PNAB/LPG) é o lever distributivo mais relevante da política cultural federal hoje. O ministério tem evidência de que o redesenho funciona — não apenas em intenção, mas em onde o dinheiro pousa.

(ii) Para o debate sobre permanência dos programas. LPG foi prorrogada, PNAB foi desenhada como permanente. Há janela política em 2026 para decidir o que continua. A Nota fornece base empírica para a defesa: 3 anos de operação dos dois programas redistribuíram o dinheiro federal de cultura para territórios que nunca antes alcançou.

(iii) Para a narrativa pública. A imagem mental "o dinheiro federal de cultura fica em SP e RJ" descreve corretamente um dos três programas. Para os outros dois, é o oposto: o paulista recebe abaixo da média nacional, e o habitante do Amapá recebe acima do paulista. A percepção pública corre atrás dos dados.

(iv) Para o sistema de contas. A IBGE T3.1 (despesa federal direta com cultura, 2023) é R$ 856 mi/ano — só 4,5 % do gasto público total. Isso é uma subestimativa estrutural da influência federal, porque exclui a renúncia (Rouanet) e exclui as transferências PNAB/LPG (que aparecem na T3.1 como gasto estadual/municipal após recebidas pelo ente). A verdadeira escala da intervenção federal no fomento cultural brasileiro é R$ ≈ 3,5 bilhões/ano — quatro vezes o que a T3.1 reporta diretamente — distribuídos por três programas com três arquiteturas. Qualquer leitura honesta do sistema precisa considerar os três simultaneamente.

(v) Para o desenho de versões futuras dos programas. Duas observações específicas que a Figura 3 (rank-swap) torna visíveis e que merecem atenção do legislador:


Caveats (W1–W5)

# Alerta
W1 Cobertura SALIC ≈ 46 % do universo Rouanet (per caveat documentado da fonte). A cross-validação IBGE T3.11 (Rouanet 2022 captação nominal R$ 2,12 bi vs nossa medição deflacionada R$ 1,43 bi BRL-2024) é consistente com essa cobertura parcial. Tendência preservada, magnitude pode subestimar.
W2 PNAB e LPG são programas de transferência; o dinheiro recebido pelo ente entra na execução estadual/municipal, e parte segue para projetos via editais subsequentes. Esta Nota mede a transferência (chegada do dinheiro ao território), não a aplicação final por projeto.
W3 Janela curta (3 anos). PNAB+LPG operam desde 2022; Rouanet desde 1991. A comparação só é possível na janela de coexistência. A LPG é por desenho emergencial; sua arquitetura redistributiva pode ou não persistir além de 2024.
W4 Populações Censo 2022 finais. Para a base do denominador, foi usada a divulgação oficial IBGE 2022 (ResIBGE, junho 2023). Diferenças marginais com estimativas pós-2022 não alteram o ranking.
W5 Não inclui o orçamento direto da União com cultura (T3.1 IBGE, R$ 856 mi/ano em 2023). Esse orçamento é pequeno relativo às três contas federais aqui analisadas, mas existe e tem sua própria distribuição. Uma análise completa do "dinheiro federal de cultura por habitante" precisa somar essas quatro fontes.

Fontes

Fonte Schema atana Tabela / módulo Janela
MinC SALIC API (Lei Rouanet) atana.salic projetos_v2 (26.203 PRONACs) 2022–2024
MinC PNAB execução atana.pnab execucao_financeira (5.425 entes) 2022–2024
MinC LPG execução atana.lpg execucao_financeira (10.984 transferências) 2022–2024
IBGE Censo demográfico (denominador, fora do atana) tabela oficial 27 UFs 2022
IBGE SIIC capítulo 3 (cross-validação) (fora do atana, leitura direta xlsx) T3.11 + T3.15 + T3.1 2013–2023

Cross-walk para os 14 domínios FCS 2025 da UNESCO em canonical.domain_crosswalk (atana.pnabMultiple transversal; atana.lpgAudiovisual cultural; atana.salic → cultural multi-domínio).


Como citar

Roque da Silva Junior, J. (2026). Três programas, três geografias: Rouanet × PNAB × LPG, 2022–2024. Atana Note #21. atana.studio/notes/21/.


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