O sinal

A agenda da economia criativa promete enfrentar desigualdades. Quase sempre isso é lido em três eixos, gênero, raça, região, e o corpus atana-data tem os três. Há um quarto eixo que a retórica raramente nomeia: geração. E há um problema de instrumento: a fonte que normalmente usamos para medir o trabalho cultural no Brasil, a RAIS (o registro do emprego formal), é estruturalmente cega à maior parte do jovem trabalhador criativo. Esta Nota cruza a moldura formal (RAIS) com a informal (PNAD Contínua) e mostra uma desigualdade geracional que o instrumento usual subestima e localiza no lugar errado.

O método é o de sempre: ler o mesmo fenômeno por lentes independentes e tratar o encontro, e o desencontro, entre elas como o achado. Aqui, duas hipóteses fáceis caíram no teste, e as duas quedas tornaram a tese mais forte.

O que parecia ser o achado, e não é: o envelhecimento

O trabalho cultural formal envelhece. A idade média do vínculo ativo subiu de 35,1 (2014) para 37,6 (2025); a fatia abaixo de 30 anos caiu de 36,9% para 30,7%; a de 50+ subiu de 12,8% para 17,8%. Tentador parar aqui e dizer "o setor criativo está envelhecendo".

Não é cultural. Cruzando com a mesma medida para toda a economia formal (RAIS all-economy, mesma base, vínculo ativo em 31/12, idade 14–90): a economia inteira envelheceu +2,74 anos e perdeu 6,19 pontos da fatia abaixo de 30 no mesmo período, batendo quase exatamente com a cultura (+2,46 / −6,17). O envelhecimento cultural é a transição demográfica do Brasil, ponto final, não uma anomalia do setor. Aliás, em níveis a cultura é mais jovem que a economia: 37,6 vs 39,4 em 2025.

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O envelhecimento, então, é pano de fundo. O achado está em como essa força de trabalho mais jovem que a média trata os seus jovens.

Dentro da moldura formal, o jovem perde em tudo

A RAIS, sozinha, já mostra um padrão geracional duro (2025, vínculos culturais ativos):

Onde o jovem está formalmente empregado, está no pior salário, no pior contrato e no domínio mais precário. Mas isso é só um terço da história, porque a RAIS só enxerga um terço dos jovens.

O que a RAIS não vê

A PNAD Contínua (microdados, ocupações culturais pela definição oficial do SIIC, 50 códigos COD) mede o que a RAIS não pode: a posição na ocupação de todos os trabalhadores, formais e informais. E aí o achado vira a hipótese do avesso.

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duas informalidades, separadas por idade (2024):

Faixa Com carteira (formal) Sem carteira (informal) Conta-própria
< 25 30,5% 28,3% 38,0%
25–34 31,3% 15,4% 49,7%
35–44 27,5% 10,9% 53,8%
45–54 23,8% 8,7% 62,0%
55+ 11,4% 6,3% 78,5%

A síntese

A desigualdade geracional no trabalho criativo não é sobre uma taxa de envelhecimento incomum; essa é a demografia do país. É que uma força de trabalho mais jovem que a média canaliza os seus jovens para o pior negócio em todos os eixos: o pior salário, o pior contrato, o domínio mais precário e, fora do alcance da RAIS, o emprego sem carteira. E o instrumento que normalmente mede o trabalho cultural só vê o terço protegido, de modo que mesmo o retrato oficial subestima a precariedade.

É o pagamento do pluralismo metodológico: a lente formal (RAIS) e a informal (PNADC) juntas, e o ponto cego de uma é o achado da outra.

Quatro implicações de política. (i) Política de juventude cultural não pode ser desenhada sobre a RAIS sozinha: ela não vê dois terços do público-alvo. (ii) O contrato intermitente e o sem-carteira são a porta de entrada do jovem no setor; qualquer desenho de proteção (PNAB, editais) precisa alcançar quem não tem vínculo formal. (iii) A "formalização para baixo" (Note #10) tem uma face etária: o jovem é quem mais a vive. (iv) O envelhecimento não é argumento de crise setorial; é demografia nacional. A crise é distributiva e geracional, não etária.

Fontes

Citar como: João Roque, Desigualdade geracional no trabalho criativo: o que a RAIS não vê, Atana Note #22, atana.studio, 2026. Corpus atana-data, CC BY 4.0. Números verificados por script (RAIS + PNADC microdados).